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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Nuances


Olá, pessoas (desculpe se você for um alien ou um animal). Esse é um projeto que faz algum tempo que comecei a escrever e que só agora decidi compartilhar com vocês. Esse é só o primeiro dos contos de Nero. Depois eu posto mais.





1    

Sou o Nero. Não tive nada com o incêndio de Roma, nunca fui bem na escola e hoje ganho dinheiro dando conselhos às pessoas. Tenho alugada uma saleta num prédio comercial e atendo meus clientes lá. Acho que sou o único conselheiro da cidade. Meus clientes são, no geral, mulheres de meia idade que estão insatisfeitas com seus casamentos, empresários e outros tipos um tanto quanto interessantes.
         Essas pessoas que entram aqui parecem todas iguais e sem capacidade de pensar. Elas parecem personagens de uma novela barata.
         Sou gordo, uso óculos de grau que quase me cobrem a cara toda e tento esconder a careca com os fios de cabelo que ainda me restam. Mas de vez em quando o vento bate neles e minha careca fica à mostra, mas nada demais.
         Os nomes e acontecimentos aqui citados são totalmente fictícios e qualquer semelhança com a realidade é de responsabilidade do próprio leitor.


2

         Pedi à secretária que chamasse o próximo. Ouvi ela dizer com sua voz enjoada de dona de casa estressada e abafada pela parede que divide meu “consultório” da sala de espera.
-        Sra.Luísa?
-        Eu – disse uma voz de menina levemente adocicada.
-        Pode entrar.
         Ouvi os passos no corredor, ela vinha de salto alto. Arrumei a minha camisa e descansei meu rosto no queixo olhando um pouco ansioso para a porta. E por fim ela entrou. Uma menina ainda. Talvez uns dezesseis ou dezessete. O cabelo vinha preso num coque no topo da cabeça, era castanho claro. Vinha sem maquiagem nenhuma. Era bonita. Vestia um vestido longo meio hippie e com certeza era a estranha da turma. Sentou-se na cadeira à minha frente, tirou a bolsa das costas e ajeitou os quadris, procurando uma posição confortável naquela cadeira dura de madeira. Ficou olhando pra mim, esperando algo acontecer. Estava claramente incomodada com a situação.
-        Quantos anos? - Eu perguntei, seco, brincando com umas bolinhas de ferro japonesas que eu comprei pela internet.  
-        Dezenove - respondeu depois de uma tosse passageira – porque a pergunta?
-        Não é tão comum meninas da sua idade entrarem por aquela porta. Geralmente meus clientes estão com seus quarenta anos, crises de meia idade, sabe?
-        Sei...
-        Então, o que posso fazer por você?
-        Olha, eu nunca vim num lugar como esses, não sei bem como funciona...
-        Você diz o seu problema. Eu tento ajudar. E você paga na saída para a recepcionista.
-        Mais simples do que eu pensei – Ela disse arriando os ombros.
-        Pode começar.
-        Hum... É que... - Pausa – Todas as meninas da minha idade já – pausa – você sabe... - fez um gesto com as mãos.
-        Entendo... E você quer – fiz o mesmo gesto pra ela.
         Ela ficou me olhando ingenuamente. Talvez esteja um pouco envergonhada, deve ser difícil pra ela falar sobre isso com um estranho. E ainda pagar.
-        Não exatamente isso. Eu queria um relacionamento sério, sabe?
-        E você tem alguém em vista?
-        Sim e não. Ele é legal, mas às vezes é tão idiota.
-        Normal ele ser assim. Quantos anos ele tem?
-        Dezessete.
-    E você está apaixonado por ele a quanto tempo?
-    Eu não disse que estava apaixonada...
-        Esse é o meu trabalho. A maior parte das coisas eu não preciso escutar para ter certeza. - Ela fica meio desconsertada –  O que te faz pensar que ele é O CARA?
-        Na verdade eu não acho que ele seja O CARA, mas é o que eu tenho agora. Eu acho que seria bom arriscar. Sabe, eu não tenho nada a perder...
-       Olha Luísa, aprofunde sua relação com esse rapaz, dê uma chance. Se você quer namorar e tem uma oportunidade dessas na sua cara você não pode desperdiçar assim. Às vezes a sorte só bate uma vez na sua porta, ele pode ser o homem da sua vida.
         Eu sempre termino meu conselhos com uma frase de efeito, ajuda a dar um ar de poder. Apesar de clichê, ajuda. Eu acho meio bobo o fato de eu ganhar dinheiro com isso. Geralmente eu dou opiniões tão infantis, que qualquer um daria. Mas as pessoas ainda me pagam por isso. Acho que ela têm pena de mim.
-        Dói?
-        Não sei Laura, não sei. Nunca fiz isso com virgens.
-        Você é tão interessante.
-        Obrigado, se ganha isso vivendo.
-        Vou guardar essa frase. Acho que volto depois pra te contar o que aconteceu.
-        Ok, você não paga. Quando quiser aparece aí e diz pra recepcionista que é um retorno.
-        Tá bom, obrigada.
         Se levantou e saiu em direção à porta. Olhei pra bunda dela. Olhei para os saltos.
-        Tchau.
-        Tchau – ela respondeu.
         Continuei brincando com minhas bolinhas de ferro. É calmante. Pedi pra recepcionista chamar a próxima. Arrumei a minha camisa e descansei meu rosto no queixo olhando um pouco ansioso para a porta.

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