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Quem sou eu

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Sou um mensageiro. E por muitas vezes sou também a mensagem.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Dias de verão que se desmancham no suor da sua camisa
A luta que desata o nó da sua garganta em um choro baixinho é a mesma que torna o nó dos seus dedos mais fortes
O sono perdido para um sonho pesado não vai te deixar calado
Grite por amor, grite por alívio
A dor te faz sentir mais vivo

Luiza Medeiros

domingo, 2 de outubro de 2016

e eu que não mordi cachorros,
refiz meu caminho hoje, ao fim da tarde
ao início de uma nova vida,
repleta de borboletas que habitam não
apenas as flores, mas também os nomes
dos rapazes que eu não aprendi.

E todas as coisas que não aprendi foi apenas
por não saber onde puxar, onde segurar, onde
aprender.

e os olhos de quem me olha, como quem não vê o escuro
por trás de todo o mal e bem. por trás de todo o escuro
que se faz em meio ao mesmo clarão que não tem olhos por trás.
faço nas minhas palavras
uma morte tranquila e sem dor,
como a que lorca,
dono de um dos nomes mais bonitos,
insistiu em recitar
sob a voz de cazuza.

os atores são apenas homens comuns.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

tá tudo no chão, sweetheart.
tudo. caiu tudo da estante e ninguém teve
a audácia (ou seria coragem?) pra ir apanhar.
mas apanharam. o negro e a mulher.
melhor, a mulher negra. Aquela que dizem ser deus.
E não se esqueça que doido também apanha.
Mas não é o doido que derruba.
na verdade melhor não. melhor nada
aqui ninguém é melhor do que ninguém.

Quem derruba é o curso da vida,
que dirige o ônibus com mãos fortes
e nada delicadas, de quem não sabe
prender os cabelos de filha mulher.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

agora já não basta.

com o talhe firme de quem não perde nem o medo nem a experiência
eu recobro meus sentidos e me disponho ao mundo como marinheiro
que nunca viu o mar. o mar, azul e distante que traz e leva tudo que há
tanto tempo nós temos construído. a força da natureza é vital. vital,
ho
je sem motos.

finjo que sei brincar de ser mar, de ir e vir, de ser estático sendo voraz.
mas não sei brincar, não mais. não mais derrotas ou vitórias nessas reg
ras, que de tão puras são vorazes.

tenho tentando inutilmente me apossar do orvalho que se derrete nas
flores nas primeiras horas da manhã. veja bem, inutilmente. tenho ten
tado me fazer boiar na água que chove aqui, que de tão salgada, nem
parece que é resultado da liquefação do doce que é seguir essa estra
da que não está aqui há tanto tempo.

e agora que percebo todas essas retas, todos esses mastros que aca
bam aparecendo no horizonte primeiro que as popas e as proas, eu
refaço todos os meus passos em busca de ser um eu diferente. Mas
que seja exatamente igual ao que eu sou agora.

agora já não basta.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

esse cheiro de alma lavada, de mijo, de
banheiro não limpo, de alma quase sebosa.
às 3 da madrugada ou às 1 e meia da tarde.
agora já são duas e eu ainda não movi nem
um fio de cabelo para que o universo me 
entendesse de uma forma mais completa.
houve um tempo de minha infância que 
alma sebosa era o melhor xingamento 
dentre todos os "tua mãe é minha boe e 
nada me faltará" e "tua mãe te vende?"
acabei crescendo descontroladamente.
quase me derrubo por entre esses prédios 
tão altos. acho que esqueci de perceber que
essa cidade crescia junto comigo-sozinho.
arrumo uma ou outra palavra aqui e ali
apenas para ajustar a métrica da correnteza
que aprendi como quem ajusta uns óculos 
de parafuso semi-vesgos. semi-condicionados.
ouvi dizer que não se usa mais hífens no novo
acordo ortográfico. mas já que não assinei nada, 
vou continuar usando os hífens-hífens.
não acordei, não quero acordar. e acho que 
também não estou muito afim de dormir.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Desarmados, seguimos a marcha.
Não há causa, bandeiras ou doenças,
Não temos medos, represálias ou revoluções.
As formigas, por outro lado, também marcham.
A biomimética me faz querer escrever.
Tentar ver o qunato de poesia tem no chifre do boi
Nos reis que já morreram, deposito minha lealdade.
Nos músicos, a vocalização daquele refrão
Tentar ver qualquer floresta dentro de mim,
que de tão árvore que sou, acabo desmatado.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

um dia de calor em que você se encontra derretidamente
solitária, perdida em meio à ideologias deste novo mundo,
entre os poderes da nova mídia e àquela indecisão digna
de tuas águas
não lembro aonde é minha lua, mas meu ascendente em peixe
nos une nesse mundo, onde eu nado e você se deixa nadar.
e nessa dança, não há dois lados, mas sim um passo solitário.
que de tão solitário, acaba por ser o passo de uma multidão.
uma multidão dentro de um par só.
como flor e criança se deixam cuidar-se. como as criações
que têm que morrer para que a criatividade sobreviva.
como nós, que morremos a cada dia, no banco do ônibus,
no banco de pedra e no banco do brasil.

o orvalho seco da mata que não se vê mas atua,
sozinhos somos muitos, equidistantes, sol e lua.
sem papéis predefinidos: somos calor para quem tem frio.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

derretida em meus braços
tu quase não é mulher.
não é birra de fim de tarde
e nem sonoridade estranha quando se tenta falar
aqueles idiomas que ninguém mais fala.
acho que são os pedaços de carne que me
fazem sentir como se eu fosse um soldado
voltando.
voltando pra guerra,
voltando pra guerra.
em todo canto que vejo, olho explosões.
e lá fora, tem explosão de cores e som e fúria.
em todo canto que olho, vejo a janis ainda soltando
seus gritos desesperados de socorro.

derretida em meus braços,
tu é ainda um sintoma recorrente
do zika virus
chico cunha
febre dengosa
que eu nem tive.
acho que é o refrigerante que eu não bebo mas,
que me embebeda e me faz crer que tudo é uma conspiração maior
que um dia vai cair.
assim como eu caí hoje de tarde ao tropeçar no meu próprio pau.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

clube do bolinha

Eu continuo trepando e espalhando a dor.
continuo, aborto imprevisívelmente atrasado,
completando vinte anos de gestação, mesmo após
sair do útero em direção à lama.

Pinto.

E eu me sinto doente. Me sinto estranhamente
firmado em um sofrimento que é necessário.
É padrão. Mas isso não tem a ver com minha doença,
que é outra.
Uma silenciosa, que não mata.
Sem grupos de apoio, sobrevivo.
E da sobrevida, a doença se alastra.

rola

Eu continuo fumando.
fumando todos os cigarros
que nunca fumei
por não saber tragar.
Eu continuo remando
por entre os carros
que nunca guiei
por medo de atropelar
sonhos, precedências.
no fim da rua, teu olhar
rimando com o fim
do meu olhar
também.

duro

feche os olhos e respire devagar.
tente encontrar algo dentro de si.
porque do lado de fora, as coisas
estão sendo corroídas.
E é algo necessário.

feche os olhos.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

a flor e as penas

caminhei
como se o mundo girasse
seguindo minha rotina de privilégios
sacrificados.
mas o mundo caminha, joão.

não apontei nem teve cores.
desolação dos terrenos não arados,
que não brotam nem se fazem solo seco,
rachado, que disputa  qualquer coisa
para parecer cenário do seridó que nem existe.

o seridó não existe.
o monstro derrotado de construção e lágrimas
sorriso fingido sob o sol desertante de domingo.
o bom de caminhar é que se cansa.
e se justifica o descanço.
o bom de caminhar não são
as paisagens que se vê.
o bom de caminhar é
saber que caminhar
é criar uma dor.

a dor nas pernas
a flor e as penas.
a náusea não me telefonou.
e os autos já atropelaram a flor.