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quinta-feira, 29 de março de 2012

Labuta


Essa vida é uma labuta medíocre.
Minha cabeça está cheia de questionamentos existenciais e de poemas que ainda nem comecei a escrever. Minha bexiga dói. Levanto. Vou até o banheiro. São duas da manhã e eu tenho que acordar às seis. Santa mediocridade!
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Já são cinco da manhã. Digamos que eu não tenha dormido tão bem assim.
O dia já entra pela janela do meu quarto. Minha mãe faz questão de soar a voz estridente pelo buraco da fechadura, abrindo oficialmente mais um dia de bosta na minha vida medíocre. Eu sinto o gosto da derrota na minha boca. Eu quero hibernar nessa cama ruim. Os lençóis fedem a suor e baba de um imbecil que não sabe nem fechar a boca enquanto dorme. Mais uma vez o gosto de derrota. Penso em Bukowski. Penso em Einstein. Penso em Newton. Será que todos os gênios são obrigados a passar por esse tipo de coisa?
Dou uma volta na chave. Abro. Ela já reclama aos quatro ventos as mesmas reclamações de todos os dias. Eu caminho no corredor entre o meu quarto e o banheiro como quem caminha nos corredores de Folsom. Quem caminha nos corredores de Folsom sabe que está fodido, mas mesmo assim, não está nem aí. Quem caminha nos corredores de Folsom só espera Johnny Cash cantar uma de suas músicas sobre matar um cara lá em Reno.
Ligo o chuveiro. É a primeira – e muitas vezes a única – coisa boa que me acontece durante o dia. A voz estridente  mais uma vez. Saio do chuveiro. Visto o uniforme como quem quer voltar ao inferno casual, como um preso que não quer ser transferido de cadeia. Calço os sapatos.
Tomo café devagar, apreciando a comida. Apesar do gosto de pão, do saboroso suco e de toda regalia de minha refeição, continuo com o gosto de derrota na boca. Não sei se escovo ou não os dentes. Não sei se ponho o desodorante. Não sei se vivo. Mas essa é uma questão que deve ser menosprezada.
Sento na cadeira e espero o carro vir me pegar. Pelo menos isso.
É uma mulher que dirige. Uma completa idiota. Tem um casamento em crise, filhos que não conseguem empregos e contas a pagar. Ela ganha dinheiro transportando alunos de suas casas até as suas respectivas escolas. Poupemos minha mãe e afirmemos: quando eu entro no carro, tenho o primeiro desejo enorme,, de chutar a cara de alguém. A cara dos três moleques idiotas que sentam no banco de trás. Por um lado eu tenho pena deles, mal entram na vida e já estão fodidos, mas por outro lado, eles são o lado ruim – ou seja: a maior parte – de um mundo futuro, um mundo em que eu não quero viver, então... que se fodam!
As crianças descem. Agora é só eu e a mulher. Eu tenho vontade de chutar a cara dela também. Ela faz todo o percurso escutando um programa de rádio idiota. Ah, pra variar, eu também tenho vontade de quebrar o rádio.
Eu aumento a música nos fones de ouvido. Até que chego à porta da escola.
Desço do carro já excomungando mentalmente o bando de imbecis que atravessam a rua junto comigo. É nesse momento que eu perco a conta de quantas caras eu desejo quebrar durante o dia. Eu entro na escola. A diretora, com seu sorriso sujo de cigarros, batom borrado e seu rosto de dar náuseas recepciona os alunos podres na entrada do corredor principal.
Vontade de quebrar a cara dela.
Eu caminho devagar no corredor. Pessoas, quase sempre com pressa, empurram-me. Fodam-se. Alguns me desejam bom dia. Metade dessas pessoas não escutam resposta. Estou ocupado demais tentando salvar-me do suicídio. A metade que escuta resposta, não merece meu bom dia. Eu realmente não desejo que aquelas pessoas que só pensam em me foder de todas as formas possíveis, tenham um bom dia pela frente. Eu desejo que um caminhão passe por cima de seus corpos inertes e os arraste ao longo da BR 101. E que eles vão direto para o inferno, receber cutucadas de tridentes nos seus respectivos ânus.
Entra o primeiro professor.
Filho da puta. Tenho vontade de disparar com uma espingarda na cara dele. Nada contra ele.
Pessoas entram e saem durante toda a manhã naquela sala imbecil. Eu desejo estar próximo de minha morte, pois admito que não sou corajoso a ponto do suicídio. Pessoas entram e saem durante toda a minha vida. Nenhuma delas merece algo bom de mim.
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Agora são duas da manhã. Novamente eu não consigo dormir. Eu sei que amanhã será mais um dia medíocre. Eu sei que terei a esperança de que algo aconteça no fim de semana. Mas eu sei que não vai acontecer nada. Eu sei que tudo vai ser repetir.
Minha cabeça está cheia de questionamentos existenciais e de poemas que ainda nem comecei a escrever. Minha bexiga dói. Levanto. Vou até o banheiro. São duas da manhã e eu tenho que acordar às seis. Santa mediocridade!
Essa vida é uma labuta medíocre.



Um comentário:

  1. Meu amigo, desculpa o sumiço, mas o momento é de mudança e nesse momento tenho tido pouco tempo de escrever, de postar, de visitar e de comentar... Mas quando possível, apareço pra deixar pelo menos um olá!

    Olá!

    Abração!

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Ninguém é autossuficiente de pensamento.